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Cristielane: o drama anunciado e a ameaça ignorada

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José Elígio Tavares e Cristielane eram casados havia sete anos e há 20 dias ela rompeu o relacionamento. Desde então, ela vinha sofrendo ameaças. Na última sexta (15), ela foi à delegacia e registrou um boletim de ocorrência contra o ex-marido. Cristielane é mantida refém há mais de 24 horas.

Quando que as delegacias vão levar a sério as denúncias das mulheres? Quantas mulheres precisarão morrer nas mãos dos seus pré-anunciados algozes para as autoridades entenderem que esses homens estão dispostos a cumprir suas ameaças? Quando a Lei Maria da Penha será usada para de fato proteger as mulheres, em vez de se punir os agressores (muito mal e parcamente) quando a violência já se fez valer no seu estágio máximo?

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Feminicídio: O nome do crime

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A tragédia de Realengo despertou um arsenal de questionamentos que servirá de pauta para preencher o dia inteiro da televisão por um doloroso tempo. Nos preparemos para ter na manhã com Ana Maria, na tarde com Sônia Abrão, nas noites com jornais nacionais e finais de semanas fantásticos , reportagens sobre os perigos do fanatismo religioso, as conseqüências do bullying, necessidade de maior proteção nas escolas, e, até mesmo, a superioridade  física masculina que permitiu aos meninos escaparem do assassino que aparentemente estava atirando a esmo.

Mas não demorou muito para as crianças sobreviventes esclarecerem que ele atirava nas meninas para matar. Nos meninos, para machucar. Dito isso, as matérias passam aos pontos seguintes, agradecimentos aos policiais e história do assassino. Como ignorar relatos que o homem estava lá para matar apenas mulheres?  Proponho um exercício, vamos mudar uma palavra do discurso das testemunhas e sentir os efeitos: “Ele atirava nos negros para matar. Nos brancos só pra machucar.” Qual elemento novo que surge? Racismo, claro. Crime de ódio aos negros. Logo, o que aconteceu tem nome também. Não foi um crime voltado às crianças, foi Feminicídio. Crime de ódio às mulheres. Matou uma dezena que representa todas as mulheres da sociedade. Morrer pela cor da sua pele é mais revoltante do que morrer pelo sexo que carrega?

Todos os dias no blog relatamos casos de feminicídio no Brasil. O termo é mais comumente aplicado ao assassinato de mulheres resultante direto da violência doméstica e/ou sexista (até mesmo pela sua frequência). As “justificativas” para o ato são diversas: ela queria me deixar, ela não quis me beijar, ela não cozinhou o feijão. Mas a essência é uma só: homens que vêem mulheres (muitas vezes sem plena consciência disso) como seres inanimados e que existem unicamente para seu dispor, quando se recusam a essa condição ou não a exerce da forma como deveria, são descartadas. O mesmo acontece com os estupros seguidos de morte. Uma vez cumprido o propósito, a vítima não mais merece viver, seja para não reconhecer o criminoso mais tarde, seja para completar o ritual de sadismo. Não tenho a intenção de aqui de simplificar crimes complexos como esses, apenas alertar para a recorrência e a sua natureza em comum: o machismo. O machismo é uma doença social, um problema de todos. O feminicídio é o expoente máximo desse sistema de desigualdade de gênero, mas a sociedade inteira contribui para a sobrevivência dessa condição em outras atitudes, seja na conivência com violência doméstica, nos programas de televisão sexistas ou ensinando que azul é de menino e rosa é de menina.

A tragédia de Realengo é um exemplo ainda mais cru do que é o feminicídio. Em casos de violência doméstica o crime esbarra nas barreiras do privado, e nos estupros nos mitos da sexualidade humana e cultural. Nessa situação tudo está mais explícito. O autor do crime explicou seu alvo. Agora temos uma prova irrefutável, indigesta: dez meninas assassinadas pela arma de um homem que deixou bem claro qual era seu propósito. Feminicídio é o nome. Fe-mi-ni-cí-dio. Aprenda a usá-lo ou seja mais um a conviver com 10 cadáveres juvenis femininos debaixo do tapete. Do seu tapete.

 

Outros textos sobre o assunto da Renata Correa, Valéria Fernandes, Lola Escreva

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O valor de duas virgens. E de duas aspas.

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É impressionante que mesmo em casos como o das três adolescentes covardemente e brutalmente violentadas a mídia (grande parte) não se priva da oportunidade de deixar uma dose de veneno para temperar mais uma história envolvendo violência contra a mulher. A notícia das jovens estupradas após encontro marcado no Orkut, retirada do portal www.olhardireto.com.br, ainda que com uma abordagem bem digna no corpo textual, conseguiu honrar o backlash usando as aspas no termo estupradores e ênfase na virgindade das moças logo no título, dando um ar esquizofrênico à notícia. Deficiência gramatical ou de caráter mesmo? será que o responsável pelo título intencionou plantar uma dúvida no leitor, que o tal o estupro pode ter sido um “estupro”?

Além das petulantes aspas, a menção à virgindade. Ah, o hímen. Quanta responsabilidade designada a uma película que seria insignificante se não vivêssemos em uma sociedade que a considera um lacre de segurança das mulheres-objeto. Uma vez rompido o produto perde valor, assim como acontece em todas as mercadorias. Aprendi na faculdade de jornalismo que o título (nem sempre feito por quem escreve o texto) deve conter as informações mais importantes da matéria. Sendo assim, qual seria a relevância de se apontar quais das moças eram virgens ou não, além de permitir a mesma discussão machista que faz uso de todos os mecanismos possíveis para desqualificar a agressão sofrida por uma mulher estuprada, incluindo o fato de já ter tido algum contato sexual? Talvez ao mencionar a pureza de duas das adolescentes o autor do título, defensor da imparcialidade midiática, tentou equilibrar o posicionamento editorial já direcionado pelo par de sinais gráficos. É possível que o  ato não tenha sido tão indolor como as aspas diziam, afinal, eram virgens, parte fundamental do roteiro que compõe o grande crime. Até mesmo quando tenta (?) ficar do lado das adolescentes a suposta defesa vem recheada de sexismo. Estuprar uma virgem é atentar contra a honra e o direito do homem que a possuirá, que agora terá que se conformar com um produto usado, danificado. O altar oferecido às donzelas não existe para exaltá-las, mas valorizar o macho que será seu dono.

E mais uma vez vem a conclusão que incansavelmente se apropria de cada um dos nossos raciocínios: mesmo quando o crime fere diretamente nosso corpo, nossa alma, de todas as formas que se pode ferir alguém, nossa dor é questionada e nosso agressor se torna vítima também.

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O machismo mata quem?

De acordo com um estudo chamado Mapa da Violência no Brasil, cerca de 10 mulheres por dia são assassinadas no país, média superior à mundial. Estima-se que cerca de 70% delas são vítimas de ex ou atuais companheiros. Esse blog tem o objetivo de dar um rosto, uma histórias a essas mulheres mortas pelo machismo e não permitir que elas se tornem apenas mais um número. As vítimas não obedecem a um estereótipo, não tem cor, idade, profissão nem situação financeira pré-determinante. Elas moram tanto em condomínios fechados como na favela, são doutoras ou domésticas, vizinhas, colegas, irmãs, mães, filhas. A dura verdade é que basta ser mulher para ser morta pelo machismo. Ser morta por ser mulher.

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