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Depoimento: Fui molestada pelo meu pai

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Que perfeição as informações postadas. Dolorosas, mas perfeitas para nos levantar do anonimato e falar as mazelas que passamos.

 

Ao mesmo tempo que fico gelada, com medo  lembrando-me de tudo que passei da vontade de fazer um blog assim, relatando o que vivi ao lado de um monstro pai.

 

Aos 16 anos de idade meu pai me molestou na minha própria cama,ele já tentará entrar em meu quarto, isso quando não tentava me olhar pela janela do banheiro tomando banho. Eu vivia com medo daquele monstro, de ir para casa, de dormir, quantas noites passava em claro sem pregar os olhos. É por isso que hoje sou assim, sentimentalmente sentimental por todo esse tipo de assunto, nada que me remeta a dores profundas, sou uma mulher formada, esclarecida que lida com o passado muito bem.

 

De tudo isso eu só tenho que agradeçer a Deus por não ter sido uma dor maior, já que o ato em si não o foi finalizado, mas há marcas em meu corpo que gritam até hoje, principalmente quando vejo notícias assim na tv, do meu lado e até na minha família.

 

É doloroso saber que ao contar para minha mãe ela não acreditou em mim, hoje entendo por que a trato com indiferença e dó ao mesmo tempo. Mulher que foi espancada a vida inteira juntamente com as filhas, acredita que o marido é seu santo, seu guia e o teme e também o respeita de uma forma absurda, coitada eu tenho muito pena dela, mas já tive também muito rancor.

 

Queria eu ter tido uma familia que me encorajasse a ser mulher sem feridas, mas a vida não é feliz para todos e em algum momento eu tive que escolher em ser feliz sem a familia (o que não seria real nunca, mas sim fantasia da cabeça de uma garota que brincava de Barbie)… que tinha uma infânica mascarada por brinquedo em todo Natal, dia das crianças, e que tinha seu pai beijando em sua boca quando chegava do trabalho.

 

Eu não tinha capacitação amadurecimento em levar tal fato a policia, defensoria ou etc. E como meu suporte maior não me deu força eu me sentia sozinha no mundo. E sozinha eu parti, levando minha irmã é claro… já que sendo mais nova que eu começara também a ter visões de moléstia dentro da própria casa, contra ela mesma.

 

Abandonamos aquele lar almadiçoado e hoje somos amigas que tentam não abrir as feridas que o caminho da vida nos deixou. Eu hoje conto a qualquer um minha saga, apesar de já ter tido muita vergonha. O ódio por ele abriu espaço para o perdão… indiretamente, já que não tenho mais vontade que ele morra como tinha, mas que pague a cada segundo de sua vida. Ficando sem grana no bolso,  sem emprego, ou com qualquer dificuldade que o remeta a se lembrar do que fez e saber em seu íntimo que essas razões do passado exercem forte pressão sobre a sua vida ainda, mesmo que já tenham se passado mais de 15 anos.

 

Obrigada por deixar-me expressar esse fato que a 15 anos nunca foi postado em lugar algum.

 

 

Camila Maciel


 

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Depoimento: Sou uma sobrevivente de guerra

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Quem o machismo matou hoje? é o título que resume exatamente o que eu penso e sinto todos os dias ao assistir noticiários.

 

Oi! Já entrei direto nem me apresentei, mas sabe como é… Meu nome é Jari, tenho 38 anos, quero compartilhar minha história que parece comum pois acontece todos os dias, mas eu tive a sorte de sobreviver para contar minha história e a tristeza por  saber de tantas mulheres que morrem todos os dias por “homens” machistas e covardes etc.

 

Como a maioria das meninas da minha comunidade fugi para  casar com meu carrasco, aos 14 anos fui morar com ele (23 anos) e, em seguida, fiquei grávida de um menino. Aos 15 anos já estava com atribuições de uma mulher adulta, cuidava da casa, do filho e do carrasco.

 

Para abreviar o sofrimento vou resumir: queria estudar ele não permitia, queria trabalhar ele também não permitia ou seja, me tornei prisioneira dentro da minha casa, mas sempre lutei pelo que acreditava. Durante casamento ou a prisão que vivia tentei estudar trabalhar tudo à base de brigas e ameaças e muita chantagem emocional. O cabra, pode acreditar, se fazia de vítima e de coitado até que finalmente não suportei mais e fui embora, mesmo sabendo que corria risco de morrer, mas decidi que preferia morrer a suportar tudo aquilo.

 

O macho em questão sequestrou meu filho, ameaçou o gerente de onde eu trabalhava, fez da minha vida um inferno ainda maior, se é que é possível, durante seis meses. Então planejou e executou seu plano maldito: me esperou atrás de um muro, quando cheguei do trabalho próximo de minha casa, veio correndo em minha direção pelas costas. Com o susto me virei pra ver o que era, foi quando ele me feriu com uma faca da altura do abdômen próximo do coração e atingiu meu fígado. O valentão fugiu, se apresentou e se assegurou de todos os direitos que lhe cabiam e a mim restou o hospital e o sentimento de ser a última das mulheres e, é claro, o filho para cuidar. Tive que sair do trabalho, mudar de cidade, criar o filho sozinha, procurar psicóloga para superar o sofrimento da dor e da impunidade.

 

O processo criminal caminhou a passos L E N T O S, o réu pagava advogado bom e eu fiquei foi com o Estado mesmo, que levou exatamente 17 anos para resolver o caso e sabe como terminou? O réu foi a júri popular e foi condenado por tentativa de homicídio duplamente qualificado com 10 anos e nove meses, mas pasmem:  NÃO vai cumpri a PENA porque ela prescreveu.

 

Pergunto, que culpa tenho eu que o Estado demorou 17 anos para concluir seu trabalho? Isso quer dizer que após esse tempo o que ele fez não é mais crime?  Então gostaria de saber, o que me resta? Como acreditar em lei, justiça blá blá blá…

Jari – Sempre Viva

 

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