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Quadrilha formada por políticos, empresários e policiais é acusada de cometer feminicídios no Paraná

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Era a vigésima morte na cidade desde que os crimes começaram a ser contados. O corpo foi encontrado às 7h30 por um pedreiro, em 5 de abril de 2001, num matagal do distrito de Tranqueira, onde outras ossadas femininas já tinham sido descobertas. Natalina Kapp, 20 anos, a vítima da vez, havia sofrido violência sexual e morreu por um traumatismo craniano provocado pelas incontáveis pauladas que levou na cabeça.

Naquele mesmo mês, a Polícia Civil paranaense registrou a morte da gerente de uma loja de calçados, Maria Helena Azevedo, 28 anos, assassinada com um profundo golpe na garganta. Em maio daquele ano, Edivânia de Roccio Poli, 21, estudante de magistério, desapareceu. Nair Costa Faria, a “Baixinha”, 26, foi morta pouco tempo depois. Cleide, encontrada sem vida, com as roupas rasgadas e indícios de violência sexual. Mais e mais vítimas. A última de 2001, Vanessa Ekert dos Santos, 18 anos, foi estuprada e estrangulada.

A 40 minutos de carro de Curitiba e quase duas horas de ônibus do centro da capital, Almirante Tamandaré mantém, há mais de uma década, a estranha tradição de violentar e matar suas mulheres. O assunto perturba e assombra os moradores. É raro ver moças andando sozinhas pelas ruas. Elas estão por todos os lados, mas sempre em grupos. Foram 35 assassinatos entre 1994 e 2002, ano em que as mulheres de Tamandaré viraram notícia. A pressão da família de Kapp tirou os crimes do campo da naturalidade. Entre erros, prisões injustas e queima de arquivos, o governo do Paraná precisou manifestar-se e determinou, em 2001, a criação de um grupo especial de investigação, que relacionou parte dos homicídios.

Há suspeita de que uma quadrilha de criminosos, que se autointitula “A Firma”, é responsável pela barbárie. São policiais militares e civis, políticos locais, empresários, envolvidos com o tráfico de drogas e roubos de carga. Segundo a delegada Vanessa Alice, designada, na época, para apurar os crimes, há, inclusive, um modus operandi. Antes de matar, os algozes torturam as mulheres. Depois, desovam os corpos em matas ou estradas de terra da região. Na maioria das vezes, com sinais de violência sexual e estrangulamento.

A delegada pediu a prisão de pelo menos 50 pessoas envolvidas com a quadrilha. As ações se arrastam na Justiça. Nas mortes de Maria da Luz Alves dos Santos e Joyce Devitte Katovich, 17 réus aguardam até hoje o júri popular, protelado por inúmeros recursos. Luciano Reis dos Santos, que confessou o homicídio da professora Teresinha Elizabet Kapp, está preso. Dois motoqueiros chegaram a ficar quase três anos na cadeia pela morte de Vanessa Ekert. As testemunhas voltaram atrás e eles foram absolvidos.

Em aberto, os casos não demoraram a ser esquecidos em uma cidade em que a média de homicídios é de uma pessoa a cada três dias. Estatística que deixa o local estranhamente silencioso. De vez em quando, ouvem-se sons cotidianos. O ronco dos motores dos carros e ônibus que cruzam a única avenida da cidade, o latido de um cachorro, a música de um rádio ou o toque do celular. A voz dos moradores é raridade. Falam baixo, tímidos. É preciso fazer esforço para compreendê-los. O olhar é quase sempre desviado. Falta quase tudo no município da Região Metropolitana. “Não tem saúde, educação, emprego e especialmente apelo pela vida. Dignidade humana. O Estado é muito ausente”, explica a promotora Siymara Smotter.

Em 2010, um caso chamou a atenção da promotoria da cidade. Lídia Moreira dos Santos foi encontrada morta no amanhecer de 31 de março. Os laudos indicam que foi assassinada por mais de uma pessoa a pauladas e pedradas. O corpo foi arrastado por cerca de 100 metros, cruzando uma cerca de arame farpado. O principal suspeito é o policial militar Leandro Veloso. A Firma, acredita a promotora, pode ter voltado a atuar ou nunca ter parado. A reportagem não localizou o soldado.

“Os processos ficam parados, a polícia não conclui as investigações e nós ficamos de mãos atadas”, afirma a promotora. “Não dá nem tempo de acompanhar as mortes.” O delegado Job de Freitas defende que os assassinatos das mulheres em Almirante são “coisa do passado”. Segundo boletins de ocorrência, em 2010, foram cinco vítimas. Neste ano, uma. Marlene Gomes, 39 anos, perdeu a vida com um tiro no rosto.

“Talvez, o nosso grito não tenha sido alto o suficiente”, suspira Rosalina Kapp, irmã de Natalina, que optou por deixar a cidade. Ela não foi a única. Várias famílias mudaram-se de Almirante, cidade que, segundo o ex-vereador Piva (PSol), tem o femicídio em suas raízes. “O machismo faz parte da cultura de Almirante Tamandaré. É uma tradição matar mulheres por aqui”, afirma o homem que comandou a CPI na Câmara dos Vereadores para apurar os casos.

Reportagem do Correio Braziliense


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