Feminicídio: O nome do crime

A tragédia de Realengo despertou um arsenal de questionamentos que servirá de pauta para preencher o dia inteiro da televisão por um doloroso tempo. Nos preparemos para ter na manhã com Ana Maria, na tarde com Sônia Abrão, nas noites com jornais nacionais e finais de semanas fantásticos , reportagens sobre os perigos do fanatismo religioso, as conseqüências do bullying, necessidade de maior proteção nas escolas, e, até mesmo, a superioridade  física masculina que permitiu aos meninos escaparem do assassino que aparentemente estava atirando a esmo.

Mas não demorou muito para as crianças sobreviventes esclarecerem que ele atirava nas meninas para matar. Nos meninos, para machucar. Dito isso, as matérias passam aos pontos seguintes, agradecimentos aos policiais e história do assassino. Como ignorar relatos que o homem estava lá para matar apenas mulheres?  Proponho um exercício, vamos mudar uma palavra do discurso das testemunhas e sentir os efeitos: “Ele atirava nos negros para matar. Nos brancos só pra machucar.” Qual elemento novo que surge? Racismo, claro. Crime de ódio aos negros. Logo, o que aconteceu tem nome também. Não foi um crime voltado às crianças, foi Feminicídio. Crime de ódio às mulheres. Matou uma dezena que representa todas as mulheres da sociedade. Morrer pela cor da sua pele é mais revoltante do que morrer pelo sexo que carrega?

Todos os dias no blog relatamos casos de feminicídio no Brasil. O termo é mais comumente aplicado ao assassinato de mulheres resultante direto da violência doméstica e/ou sexista (até mesmo pela sua frequência). As “justificativas” para o ato são diversas: ela queria me deixar, ela não quis me beijar, ela não cozinhou o feijão. Mas a essência é uma só: homens que vêem mulheres (muitas vezes sem plena consciência disso) como seres inanimados e que existem unicamente para seu dispor, quando se recusam a essa condição ou não a exerce da forma como deveria, são descartadas. O mesmo acontece com os estupros seguidos de morte. Uma vez cumprido o propósito, a vítima não mais merece viver, seja para não reconhecer o criminoso mais tarde, seja para completar o ritual de sadismo. Não tenho a intenção de aqui de simplificar crimes complexos como esses, apenas alertar para a recorrência e a sua natureza em comum: o machismo. O machismo é uma doença social, um problema de todos. O feminicídio é o expoente máximo desse sistema de desigualdade de gênero, mas a sociedade inteira contribui para a sobrevivência dessa condição em outras atitudes, seja na conivência com violência doméstica, nos programas de televisão sexistas ou ensinando que azul é de menino e rosa é de menina.

A tragédia de Realengo é um exemplo ainda mais cru do que é o feminicídio. Em casos de violência doméstica o crime esbarra nas barreiras do privado, e nos estupros nos mitos da sexualidade humana e cultural. Nessa situação tudo está mais explícito. O autor do crime explicou seu alvo. Agora temos uma prova irrefutável, indigesta: dez meninas assassinadas pela arma de um homem que deixou bem claro qual era seu propósito. Feminicídio é o nome. Fe-mi-ni-cí-dio. Aprenda a usá-lo ou seja mais um a conviver com 10 cadáveres juvenis femininos debaixo do tapete. Do seu tapete.

 

Outros textos sobre o assunto da Renata Correa, Valéria Fernandes, Lola Escreva

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16 Comentários

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16 Respostas para “Feminicídio: O nome do crime

  1. Isso é realmente inadimissível!!!
    Temos que lutar para desconstruir o machismo, pois estamos morrendo aos milhares em todo o planeta.
    Por mim, por nós e pelas outras, DIGA NÃO A VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES.

  2. “Feminicídio: O nome do crime”. Lendo este texto, revelador e verdadeiro, temos o perfil do criminoso: um fanático religioso, que odiava as mulheres.
    Falta descobrir qual pastor (era evangélico) fez a cabeça desse “santinho” …

    • Helena

      Talis. Com esta resposta, vc engrossa a fila dos preconceituosos.
      Poderia ser ele católico ou muçulmano! o que se discute aquí, é exatamente como o preconceito pode gerar violência. Como a discriminação é usada para matar e/ou machucar!
      Desculpe, mas temos que lutar justamente contra todas as formas de preconceitos e discriminações não acha?

  3. Conhecer este blog me causou muito impacto, por mais que vejamos notícias de violência contra mulheres com frequência, ter os óbitos estampados em posts é muito diferente. Dá uma dimensão da realidade, que infelizmente parece muito pior do que imaginamos.

    Também estranhei o grande número de meninos em relação ao de meninas… como diz a minha amiga Valéria Fernandes “Basta ser mulher.”

  4. * ops, “de meninas em relação ao de meninos mortos no massacre”.

  5. Anônimo

    Só queria esclarecer que essas crianças não morreram vítimas do machismo.

    Morreram vítimas do bullying.

    Wellington era duramente perseguido durante a escola. Em especial, pelas mulheres.

    As mortes não foram causadas por uma objetificação das mulheres por parte do assassino. Muito pelo contrário – foi causada pela humilhação que ele sofreu por causa delas. Ele é quem foi objetificado; teve seus sentimentos ignorados.

    Isso é tão verdade, que ao se deparar com uma criança obesa – vítimas comuns do bullying impiedoso de meninos e meninas – o atirador disse:

    “Relaxa, gordinho. Não vou te matar.”

    E é por isso que ele atirava nas meninas para matar. É por isso que os garotos de Columbine atiraram para matar.

    Apoio a proposta do blog, mas acei válido deixar minha opinião. A culpa dessa tragédia não foi do machismo, foi da crueldade das pessoas que estudaram com Wellington. Foi da omissão dos professores com o bullying por ele sofrido.

    Pensem mais, e pesquisem mais. Casos como esse quase nunca são tão simples quanto uma simples objetificação da mulher. O buraco é mais embaixo quando se trata de atiradores desse tipo.

    Seguem as fontes:

    http://g1.globo.com/Tragedia-em-Realengo/noticia/2011/04/o-bobo-da-sala-se-tornou-um-criminoso-diz-ex-colega-de-atirador.html

    http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI5054491-EI17958,00-Relaxa+gordinho+eu+nao+vou+te+matar+disse+atirador+a+aluno.html

    • O Veraz

      Por que ninguém deu atenção a este comentário? Aqui, parece-me, reside a chave para compreender este crime.

      • Ricardo

        HUAHAUAHA Alertem todas as autoridades, a polícia, os investigadores… no comentário acima se reside “a chave”, vinda de um anônimo. Ah, faça-me o favor. Quando o anônimo diz que as crianças morreram vítima do bullying ele: 1) Repete o que o assassino deixou escrito em carta e legitima as motivações do assassino (o que não faria se fosse sensato e maduro); 2) É reducionista quando simplifica as razões do crime apenas ao bullying e exclui das razões o machismo, ignorando os fatos dados pelas testemunhas de que a) o assassino atirava nas meninas para matar e nos meninos para machucar; b) selecionava as meninas pela beleza delas; e c) chamava as meninas de “seres impuros”. 3) Comete o ato falho ao dizer que o bullying matou as crianças… verdade, no caso o Wellington foi o bully que praticou o bullying contra as crianças fracas e indefesas, grande covarde que ele sempre foi; 4) Mostra ignorância quanto ao significado e funcionamento do machismo, sendo simplista quanto a objetificação de mulheres e ignorando que o machismo, no caso, estava relacionado aos sentimentos de desejo e rejeição do assassino. Provavelmente, as ideias doentes de pureza dele acabaram com a integridade mental dele quando percebia que sentia atraído pelas meninas bonitas, projetando nelas o que sentia ser impuro em si próprio, culpando-as pela atração que sentia. Por isso queria destruir o que estava gerando os sentimentos inadequados (para ele, por causa das ideias de pureza) nele, que ele identificou fora de si, nas meninas, mas na verdade estava dentro de si mesmo (talvez por isso também ele se matou, por não conseguir acabar com esses sentimentos “inadequados”).

        Enfim, machismo é muito mais e muito mais complexo do que vocês dois (ou um só?) mostraram entender. Sugiro a vocês estudar melhor o assunto machismo. Além disso, talvez por achar que seria infrutífero e inútil discutir com vocês ninguém tenha atentado para o comentário feito por vocês nem comentado sobre ele. Tendo a achar que será infrutífero também.

  6. Renata Silver

    Mesmo antes de saber do depoimento da testemunha, estranhei a predominância de meninas entre mortos e feridos. A desproporção era tão grande que me pareceu mesmo que a questão tinha alguma coisa a ver com gênero. Lendo o trecho da carta de suicício de Wellington, em que ele falava que era virgem, concluí que se tratava de um homem desequilibrado e com profundos problemas de relacionamento com mulheres.
    Mas, como o post bem diz, ninguém está dando destaque a este fato.
    A Campanha dos “16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres” foi motivada pelo massacre de mulheres estudantes numa universidade canadense. Será que as meninas de Realengo também serão lembradas como vítimas da violência contra a mulher?

  7. Muito bom o seu texto!
    Destaca um lado que eu também já havia percebido e discutido a respeito e para o qual as pessoas não estão olhando.
    Parabéns!!!!
    Também escrevi um texto sobre o ocorrido no meu blog, em: http://reginamilone.blogspot.com/
    Abração,
    Regina.

  8. Foi exatamente o que pensei quando soube da quantidade de meninas mortas. Feminicído sim! Você está coberta de razão.

  9. sara

    é revoltante ver como a midia não tem dado nenhuma enfase nesse aspecto, que só as vitimas que sobreviveram revelam , parece que ja é tão trivial a morte de mulheres pelo machismo que nem merece destaque na imprensa, isso tem me causado tanta revolta, pois alem de ser mulher tenho 2 filhas.
    Infelizmente estou vendo que chegara o dia que alem de os homens que perpetram essa vilencia contra mulher , nunca serem punidos, logo receberão premios pelos seus feitos.
    Até em frente as camaras de segurança eles tem nos matado, sem o menor receio de serem punidos.

  10. CÉTICO

    Enquanto isso pode ser verdade, que atirasse para matar meninas e só para ferir meninos, pode não ser o caso, ter sido só um resultado mais ou menos ao acaso, e a percepção das crianças ter sido essa. Perguntem para policiais se é crível que uma pessoa pouco treinada tenha essa precisão. Ouvimos coisas como que “ah, o policial deveria ter atirado no joelho em vez de matar”, mas isso é coisa mais de fantasia do que algo que acontece na realidade. Se perguntar bastante vai encontrar depoimentos afirmando categoricamente que esses que dizem ter tido uma mira espetacular em ação (tirando franco atiradores com armas de precisão, tranquilamente situados num ponto seguro e sem serem avistados pelo bandido, aí a coisa é bem diferente) estão é mentindo, não pensaram “vou atirar na perna”, muitas vezes deram mais disparos, e o que acertou, calhou de acertar na perna.

    Talvez tenha sido o mesmo caso até com o policial que atirou no atirador.

    Digo isso não para dizer que não há machismo nem nada disso, só que apenas conclusões precipitadas apenas criam descrédito para as denúncias do que realmente existe.

  11. CÉTICO

    Eu também acho que esses casos de assassinato colocados no texto como culpa do machismo são apenas raramente produto apenas de machismo. Acho que gente que faz isso não tem necessariamente um conceito das mulheres como inferiores aos homens, mas dos outros de modo geral como inferiores a ele. Poderiam na maior parte do tempo fazer o mesmo com um homem, dada uma “provocação” equivalente, que só não acontece porque eles não estão atrás de beijar homem, de que um homem cozinhe feijão e etc. Mas pode ser gozar da derrota do time, sugerir que é gay, corno, ou tem pau pequeno. Não é como se fossem falar, “o que, matar um homem, um igual a mim? De maneira alguma, está pensando que eu sou algum tipo de monstro? Eu só mataria mulheres, porque elas não são gente”.

    Acho que o “só machismo” é um pouco mais “leve”, envolvido um pouco mais em coisas como discriminação no emprego e esse tipo de coisa, não assassinato. Podem ocorrer ambas ao mesmo tempo, mas geralmente a causa mais importante não será o machismo, e sim o que quer que faça da pessoa um potencial assassino. Quando isso se dá com mulheres, mais do que um indicador de machismo como fator influente, o que pode haver é simplesmente o caso de que, numa população com X assassinos, N assassinatos serão de mulheres, mesmo se fosse totalmente ao acaso. Mas não é, e a maior parte das vítimas de assassinato de homens são homens, e não achamos que eles fazem isso por serem “feministas”, mas simplesmente porque há uma “janela de oportunidade” maior, ou mais “razões” para matar homens, e menos “utilidade” em matar mulheres. Mas isso acontece em uma parte do tempo, de qualquer forma. Como machismo não é incomum, provavelmente poderá haver um “toque” de machismo nesses casos, mas não podemos imaginar que ele é a principal causa, e que gente que acha que “lugar de mulher é no fogão”, ou que mulheres não podem ser caminhoneiras são todos potenciais assassinos de mulheres, seja de múltiplas mulheres ou mesmo de alguma com a qual tenha uma relação.

  12. sara

    quanta ignorancia , não bastasse aguentar criminosos machistas ainda ter que aturar a estupidez da maioria dos homens, para o mundo que eu quero descer

  13. Johnny

    Como o cético disse, classificar um crime como esse como puro e simples machismo soa como uma tentativa truculenta de conseguir status. Em primeiro lugar, houve sim discriminação, mas em todos os casos de assassinatos em série ou em massa existe certa discriminação contra um grupo, uma vez que as vítimas se encontram todas em um mesmo perfil, e, na mente do criminoso, tais pessoas devem ser eliminadas. Em segundo lugar, não querendo legitimar o crime – Que na minha opinião foi um dos mais odiosos que eu já vi – o fato do assassino ter sofrido bulling tem sim relação com o caso. Assassinos em massa direcionam sua raiva para pessoas que o oprimiram ou o humilharam. Ele exerce uma forma de vingança, mesmo sendo contra pessoas inocentes, como foi no caso. Diferente do assassino em série, que tem a vítima como um objeto de fantasia. O fato dele ter direcionado sua raiva principalmente para garotas, na maioria das vezes bonitas, foi devido a intensa rejeição sofrida, principalmente por parte das garotas, nos tempos de escola. Aí temos um perfil vitimológico: colégias, na maior parte das vezes garotas de boa aparencia. Se ele fosse rejeitado, humilhado, agredido em um bar gay ou em um lugar frequentado por negros, provavelmente as vítimas de seu massacre seriam gays ou negros. É claro, o caso envolve inúmeras outras questões que não caberiam aqui. Apesar disso, gostei do site!

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